Marcas ampliam atuação contra violência de gênero no Brasil
Antes tratado com cautela pelo mercado, tema ganha força diante do avanço dos casos e da pressão por consistência
Em 2025, o feminicídio atingiu número recorde da última década, com 1.568 vítimas, o que representa um aumento de 4,7% sobre 2024 e uma média de 4 mortes diariamente simplesmente pelo fato de serem mulheres, conforme destacou levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Os dados também apontam que 8 a cada 10 casos de feminicídio no país são cometidos por parceiros ou ex-companheiros, o que evidencia como eles estão intimamente relacionados à violência doméstica.
Entretanto, o medo e a vergonha da violência impedem que muitas mulheres denunciem, o que acarreta na subnotificação dos números de casos de violência. O Mapa Nacional da Violência de Gênero, criado pelo Observatório da Mulher contra a Violência do Senado, em parceria com o Instituto Natura e a Gênero e Número, estima que cerca de 58% das mulheres que sofreram violência em 2025 não procuraram uma delegacia.
Na análise de Luciana Temer, advogada e presidente do Instituto Liberta, o movimento feminista foi responsável pelo avanço da compreensão sobre o que é a violência de gênero e os contextos onde ocorrem. Esse processo também impulsionou a promulgação de leis importantes, como a Lei Maria da Penha, incluindo cinco tipos diferentes de violência contra as mulheres: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Além das mudanças de tipificação do estupro, para incluir atos além da penetração, e a instituição do feminicídio como crime.
“Tudo isso reflete uma ampliação da compreensão sobre o que é violência”, explica a advogada. Este processo de conscientização também influencia como as marcas passaram a se relacionar com o tema, ao entender que suas consumidoras também são vítimas de violência de gênero.
Conexão com as dores e resposta
Desde 2025, o Grupo Boticário tem se debruçado sobre as dores do público feminino. No ano passado, houve o lançamento do Centro de Pesquisa da Mulher, com a campanha “Pesquise Meu Corpo”, para fomentar o estudo científico do corpo feminino. Este ano, a equipe da Gut, agência de publicidade que atende a marca, passou por uma jornada de criar a campanha de 2026 com base na vivência real das mulheres.
“O processo de criação da campanha começou com um olhar muito atento para a realidade, especialmente para o avanço alarmante dos casos de violência contra a mulher no Brasil. A recorrência dessas notícias, além de chocantes, revela um padrão preocupante de naturalização. Isso nos levou a refletir: por que ainda permanecemos silenciosos diante de violências tão graves?”, afirma Renata Gomide, VP de marketing do Grupo Boticário.

Renata Gomide, VP de marketing do Grupo Boticário (Crédito: Divulgação)
Uma pesquisa sobre o tema, encomendada pela marca em parceria com o On The Go Consumer Insights, revelou pontos de conexão entre a violência e a vergonha. “Quando 9 em cada 10 mulheres dizem já ter sentido vergonha do próprio corpo e 60% relatam vergonha da idade, estamos falando de um sentimento que atravessa toda a jornada feminina e que, muitas vezes, silencia experiências importantes, inclusive a busca por ajuda”, destaca a executiva.
A vergonha que inibe a mulher de denunciar uma situação de violência levou à criação da campanha “Precisamos Falar”, que estrela Fernanda Lima, e trata-se de um canal no WhatsApp com orientações de especialistas sobre os sinais de abuso e como buscar ajuda. No final, todo este conteúdo será transformado em uma cartilha digital de acesso público e gratuito.
Até o momento, o canal alcançou 11 mil usuários, sendo que 40% demonstraram interesse em se inscrever (cerca de 5 mil pessoas), com 2 mil assinantes nas primeiras 48 horas. No TikTok, a campanha atingiu 10 milhões de visualizações, o maior número da marca na plataforma. Na imprensa, o alcance chegou a 3 milhões, de acordo com a VP.